In Utero: Albini vs Litt (Parte 6)



«Finalmente conseguimos chegar ao som que ouço na minha cabeça desde sempre.»

(Kurt Cobain)


Com as sessões de estúdio agora finalizadas, os temas gravados com vista à edição do terceiro disco foram enviados à editora, advogados e management dos Nirvana. Como Kurt Cobain confessaria mais tarde à Melody Maker, as reacções estiveram longe de ser positivas. «Um dos responsáveis da editora ligou-me uma noite e disse-me, ‘Não gosto do disco, soa a merda, tem muitos efeitos na bateria e não é possível ouvir a voz.’ Não considerava que as composições estavam à altura, e teres um agente a dizer-te uma coisa destas é como teres o teu pai ou padrasto a mandar-te ir despejar o lixo. Fiquei um pouco magoado, a um nível pessoal, pois queria que ele tivesse gostado, e foi uma surpresa ouvir tantos comentários negativos. Ele não estava propriamente sozinho nisto, pois outras pessoas – o nosso management e os nossos advogados – também não gostaram do disco.»

(Steve Albini)

O álbum seria reavaliado por Kurt Cobain após o feedback negativo. «Quando o ouvi pela primeira vez em casa, percebi que havia algo de errado», disse. «Durante a primeira semana não estava de todo interessado em ouvi-lo, o que geralmente não acontece. Não obtive nenhuma emoção dali, era como se estivesse adormecido. Então, durante três semanas, eu, o Krist e o Dave ouvimos o disco todas as noites, para tentarmos perceber o que estava a faltar. Falámos sobre isso e decidimos que a voz não estava suficientemente alta, o baixo era inaudível e não conseguias perceber as letras.» Pouco depois, Albini recebia telefonemas por parte de Cobain e Novoselic, como o mesmo atesta: «O Kurt pediu-me para fazer algumas remisturas. Respondi, ‘Tudo bem, de que músicas estamos a falar?’ Referiu algumas em específico, mas depois disse-me, ‘Na verdade, queremos mexer em tudo.’ Queria remisturar as faixas todas. O Krist achava que o baixo não estava suficientemente bem definido e o Kurt sentia que a voz nem sempre vinha ao de cima, mas tratava-se tudo de subtilezas. Era mais uma prova de que se tinha desenvolvido um clima de medo. Eles tinham gravado um disco muito bom, mas a editora e toda a gente à volta deles conseguiu convencê-los a sentir dúvidas quanto a isso.» Albini era de opinião de que não iria acrescentar nada de mais às misturas originais, acabando por concordar em entregar a master a alguém disposto a trabalhar com os Nirvana.

O problema poderia ter ficado por aqui, não fosse a publicação de um artigo da autoria de Greg Kot intitulado “Editora encontra pouco brilho no último dos Nirvana”, publicado no Chicago Tribune a 19 de Abril. Nesse artigo podia-se ler: «Uma fonte próxima da banda afirmou que os executivos da Geffen estão insatisfeitos com o disco devido à falta de potencial comercial. Consideraram-no não-lançável.» Também uma citação de Steve Albini seria publicada: «A Geffen e o management da banda odeiam o disco. Quando os Nirvana escolheram-me para gravar o disco com eles, consideraram essa decisão como indulgente. Não acredito que este álbum vá ser lançado.» Um representante da Geffen negaria que seria este o caso, admitindo no entanto que a data de lançamento havia sido adiada devido a um problema com a mistura e a masterização.

«O Albini foi pintado como o mau da fita que partilhou a história, quando na verdade ele foi a única pessoa disposta a ir a público e dizer a verdade», refere Kot. «Não falei com o Albini até ter uma versão dos factos de três ou quatro fontes diferentes dentro da infra-estrutura da editora. No entanto, ninguém na editora queria falar disso. Para conseguir publicar o meu artigo, tive que encontrar alguém disposto a confirmar todas essas fontes anónimas, e o Albini, claro, foi sempre alguém sem papas na língua perfeitamente disposto a ser citado.» A resposta da Geffen seria enviada à imprensa no dia 11 de Maio. Num comunicado intitulado “Kurt Cobain desmistifica rumores da interferência da Geffen no novo álbum”, Kurt Cobain escreve: «Não existe qualquer pressão por parte da nossa editora para mudarmos as músicas gravadas com o Albini. Temos 100% de controlo na nossa música. Nós – a banda – sentimos que os vocais não estavam altos o suficiente em algumas das faixas e queremos mudar isso.»

(Scott Litt)

Entretanto, Scott Litt era chamado para remisturar “All Apologies”, “Heart-Shaped Box” e “Pennyroyal Tea”, no estúdio Bad Animals, em Seattle. «Ouvi muito o “Automatic for the People” [R.E.M.] e gostei muito do trabalho que o Scott fez», comenta Novoselic. «Existiam algumas coisas das quais não gostava no nosso disco, pelo que quando tivemos a oportunidade de regressar ao estúdio convidei o Scott para vir connosco.» Novoselic descreve as mudanças que considerava necessárias em “Heart-Shaped Box”: «Deviam de ouvir a versão original dessa música, com o efeito no solo de guitarra a sabotar este tema no seu todo. O Steve e o Kurt estavam em conluio! Cheguei a perguntar ao Kurt, ‘Porque é que estás a sabotar uma música tão bonita ao incluir este aborto hediondo?’ E ele respondeu-me, ‘Bem, eu acho que fica fixe.’ Nem me recordo bem de quais foram os argumentos utilizados. Era uma afirmação contra a rádio comercial e o mainstream ou algo do género, não sei. Eventualmente acabaram por ceder e o Scott Litt veio para mudar as coisas.»

Depois do Chicago Tribune, também a Newsweek publicava um artigo onde referia que a editora estava a forçar os Nirvana a remisturar as músicas. A banda retaliou, acusando-os de estarem a basear-se em «informação totalmente errada», decidindo publicar a resposta na revista Billboard, na forma de uma página inteira de publicidade.

As mudanças seriam levadas a cabo depois da masterização ter sido realizada por Bob Ludwig na Gateway Mastering, em Portland, Maine. «Decidimos dar uma oportunidade à masterização, algo que não percebíamos na altura», diz Kurt Cobain. «Pensávamos que a última etapa do processo era colocar as fitas numa máquina que depois as gravava num disco, ou algo do género. Fomos lá e percebemos que podíamos retirar os vocais se quiséssemos. É incrível, é praticamente uma remistura. Então foi isso mesmo que fizemos, dando mais poder ao baixo para que pudesses ouvir as notas, aumentámos o volume da voz e aplicámos um pouco de compressão. Foi o suficiente para curar o disco.» Albini não seria da mesma opinião de Kurt Cobain quanto ao trabalho desenvolvido por Ludwig: «A sessão de masterização levou alguns dias, num estúdio em que o seu engenheiro é famoso por manipular o material em demasia. Uma masterização normal leva apenas algumas horas. É óbvio que a banda pensou que podiam fazer do disco uma carnificina para agradar todas estas pessoas e satisfazer as suas expectativas. A qualidade do som foi amolecida e a resposta do baixo ficou comprometida para fazê-lo soar mais consistente nas rádios e nos sistemas de som caseiros.» O engenheiro de som Bob Weston, parceiro de Steve Albini nesta empreitada, concorda: «O estéreo não soa tão amplo e o som da guitarra ficou mais achatado. Nas misturas originais a guitarra sobressaía mais. Contudo, mesmo com as mudanças efectuadas, continua a ser um bom disco. As músicas são excelentes, assim como o disco e as respectivas performances. Para além disso, o disco é dos Nirvana. Se eles quisessem remisturar algumas faixas e mudar muitas coisas na masterização, é uma decisão deles. Tudo o que importa na gravação de um disco é ter a banda feliz com o resultado final.»

Apesar de todas as adversidades, Kurt Cobain ficaria satisfeito no final: «Na verdade quero promover este álbum, não para vender discos mas porque estou muito orgulhoso deste trabalho, mais do que qualquer outro que tenhamos gravado. Finalmente conseguimos chegar ao som que ouço na minha cabeça desde sempre.»

As versões originais de Steve Albini seriam editadas na Edição Deluxe dos 20 anos de “In Utero”. Ouve aqui: “Heart-Shaped Box” | “All Apologies”