In Utero: Conclusão (Parte 7)



«[O Kurt] aguentou por mim, mas acho que já tinha tomado a decisão [de cancelar o resto das datas].»

Krist Novoselic


A digressão de “In Utero” arrancou nos Estados Unidos a 18 de Outubro de 1993, e incluía, pela primeira vez na história da banda, um cenário elaborado. Os Nirvana estavam em ascensão e juntavam ao alinhamento temas gospel como “Jesus Doesn’t Want Me For A Sunbeam” ou “Where Did You Sleep Last Night”, este último de Leadbelly. Entre as novidades, destacava-se a presença de Pat Smear como guitarrista, com o antigo integrante dos Germs a encarnar o quarto membro fantasma idealizado por Kurt Cobain durante as sessões de gravação do álbum, assim como a violoncelista Lori Goldston, que juntava-se à banda nas datas Norte-Americanas, e Melora Creager, na Europa. Agora um quinteto, a banda de Seattle faria um curto intervalo para a gravação de “Unplugged”, nos estúdios da MTV, que acontecia exactamente um mês depois do arranque da digressão. De volta à estrada uns dias depois, os Nirvana continuariam a promover o seu novo registo discográfico em solo norte-americano até à primeira semana de Janeiro de 1994, não sem antes voltarem à MTV para a gravação de “Live & Loud”. Após um mês de repouso (mas só da estrada, pois seria neste intervalo que a banda gravaria “You Know You’re Right”), os Nirvana tinham a Europa como destino.

Primeiro fariam uma apresentação num canal de televisão Francesa, oferecendo uma performance muito badalada em que apresentam-se vestidos de fato e gravata [ver vídeo acima]. Aqui, depois dos problemas técnicos que afectaram a guitarra durante a performance de “Drain You”, Kurt Cobain atira o instrumento ao chão num misto de frustração e desinteresse, dando continuidade à actuação gritando com as duas mãos coladas ao microfone, e com Pat Smear isolado nas seis cordas.

A tour Europeia tinha início em território Português dois dias depois, a 6 de Fevereiro de 1994, no Pavilhão Dramático de Cascais. Um dia antes, já em Portugal, os Nirvana conduziam e gravavam o áudio de um ensaio para afinar os detalhes desta digressão e acostumarem-se a arenas maiores. Entre os temas gravados, a versão de “Jesus Doesn’t Want Me For A Sunbeam” chegaria ao alinhamento final da box “With The Lights Out”, editada em 2004. Portugal entrava assim na história discográfica dos Nirvana.

Nos concertos seguintes, já em Espanha, Kurt Cobain, que juntamente com Pat Smear viajava separado de Krist e Dave (apesar disto, descreve-se um bom ambiente entre todos), já falava em cancelar a tour, chegando mesmo a informar-se das consequências que a banda sofreria se decidisse ir nessa direcção. O ponto de ruptura chegou a 25 de Fevereiro, na última de duas noites em Milão. Nesse dia, Kurt foi ter com Krist Novoselic e disse-lhe que queria cancelar a digressão. O baixista recorda: «Passava-se alguma coisa na vida pessoal dele que o estava a afectar a sério. Havia um stress qualquer.» Cobain não cancelaria a tour nessa noite, mas Novoselic acredita que só não o fez por estima ao companheiro de banda, uma vez que o compromisso seguinte era na Eslovénia, onde o baixista, de origem Croata, seria visitado pelos seus amigos e familiares. «Ele aguentou por mim, mas acho que já tinha tomado a decisão [de cancelar o resto das datas].» A digressão seria efectivamente cancelada depois do concerto a 1 de Março de 1994, na cidade de Munique. Cobain consultou um médico que lhe passou uma declaração exigida pela seguradora em como estava demasiado doente para actuar, aconselhando-lhe dois meses de repouso. Krist e Dave regressavam assim a Seattle e Cobain rumava a Roma, com o objectivo de encontrar-se com Courtney Love e a filha Frances. Não muito depois, Kurt Cobain seria hospitalizado devido a uma tentativa de suicídio na capital Italiana, e a sua morte, quase como um prenúncio do que estava por vir, era falsamente difundida pela comunicação social. Abria-se assim o último capítulo da sua vida.

As vendas de “In Utero” mantêm-se altas, estimando-se que tenham sido vendidas mais de 15 milhões de cópias. Ninguém sabe o que teria acontecido caso Kurt Cobain tivesse encontrado a solução de que precisava para escolher viver. Se por um lado “You Know You’re Right” deu-nos a conhecer uma orientação musical revestida de novos níveis de dor que poderíamos encontrar num possível quarto longa-duração, a inclusão de um acordeão e de um violoncelo na performance de “Unplugged” e na tour de promoção de “In Utero” mostram-nos uma aproximação aos R.E.M., sendo que Kurt Cobain não só era fã da banda que nos deu êxitos como “Losing My Religion” ou “Everybody Hurts”, como estava até a planear dar início a um projecto paralelo juntamente com o seu vocalista, Michael Stipe. Também os diários do músico, assim como algumas conversas que teve com pessoas próximas, dão-nos conta de outros planos, apontando para a vontade de Cobain em reformular os Nirvana, substituindo Krist Novoselic e Dave Grohl por novos músicos [ver imagem abaixo]. Tudo o que podemos fazer é especular e projectar fins alternativos, exactamente aquilo que sempre fazemos quando uma história da qual tanto gostamos não é abençoada com um final feliz.

(Ler tradução da carta abaixo)

Tradução:

«Krist,

Há muito tempo todos os momentos significavam algo mas agora já não. Houve vezes em que fizeste muito por mim e na maior parte das vezes fizeste menos que nada. Neste momento tenho vergonha dos Nirvana. A minha alma já não pode com isto. O meu corpo já não aguenta. Vou começar outra banda. Na verdade, vou manter os Nirvana com outros músicos.

Tentei falar-te sobre isto por duas vezes mas estavas demasiado bêbado, crítico e em negação para sequer ouvires. Por isso vou ser brusco. Acabou. Serás sempre rico e é algo que mereces pelo teu tempo, mas nada mais do que isso. Durante anos tive que calar-me e ouvir as tuas opiniões sobre as minhas músicas, as minhas ideias e a minha banda. Não estou aqui para agradar nem a ti, nem ao Buzz [Melvins] nem ao caralho do Calvin Johnson [músico influente de Olympia].

Odeio a ideia de ter esta banda contigo e com o Dave.

Obviamente, vocês vão chamar advogados com a ganância, mas acabou. Avisei os nossos advogados e managers. É a minha banda e por mais difícil que isto seja, tenho de fazê-lo.»