In Utero: Introdução (Parte 1)



«O Kurt estava no seu próprio mundo, naquela altura. A partir dali, senti-me muito afastado dele. As coisas nunca mais foram as mesmas. Falámos um bocado sobre o futuro da banda, mas, na verdade, a banda não podia ter futuro nenhum depois daquilo.»

(Krist Novoselic)



Depois de uma passagem pelo Japão enquanto promoviam “Nevermind” na estrada, os Nirvana apanhavam um voo para Honolulu, no Havai, onde Kurt Cobain casar-se-ia com Courtney Love, vocalista e guitarrista dos Hole e de quem esperava uma filha. Vivia-se um clima intenso, com o consumo de heroína por parte de Kurt Cobain a agravar-se, e com o casal a excluir Krist Novoselic e a esposa Shelli da celebração que tinha lugar no dia 24 de Fevereiro de 1992.

O baixista abandonaria o Havai no dia seguinte rumo a casa, partindo do pressuposto que os Nirvana tinham chegado ao fim. Krist Novoselic recorda: «O Kurt estava no seu próprio mundo, naquela altura. A partir dali, senti-me muito afastado dele. As coisas nunca mais foram as mesmas. Falámos um bocado sobre o futuro da banda, mas, na verdade, a banda não podia ter futuro nenhum depois daquilo.» Passar-se-iam quatro meses até que os Nirvana voltassem a tocar juntos em público, e quase dois até ao reencontro de Krist com Kurt.

De volta a Los Angeles, Cobain tinha já em mente o título do seu próximo trabalho de estúdio: “I Hate Myself and I Want to Die” [“Odeio-me e quero morrer”]. Na Primavera desse ano, Kurt Cobain tinha feito pouco mais do que escolher um título, rejeitando ofertas astronómicas para encabeçar digressões em grandes recintos. Enquanto a heroína ocupava a maior parte do seu tempo, “Nevermind”, editado em Setembro do ano anterior, continuava a liderar as tabelas. Com a crescente toxicodependência de Kurt a atingir níveis cada vez mais alarmantes, o casal contratava um especialista conhecido pelo seu trabalho com estrelas de rock, levando ao internamento de Kurt que em pouco tempo tornou-se sóbrio e saudável, ainda que tenha sido apenas por um curto período.

Determinados a esquecer a sonoridade obtida em “Nevermind” e em busca de um registo mais fiel às suas raízes, os Nirvana voltariam a encontrar-se com Jack Endino, produtor de “Bleach”, editado em 1989. As sessões seriam abandonadas e Endino era substituído por Steve Albini, não sem antes uma passagem pelo Brasil cujo colapso nervoso inicial daria lugar a uma sessão de estúdio animada e crucial para o desenvolvimento do disco.

Convencido por Krist Novoselic a descartar “I Hate Myself and I Want to Die” devido a processos judiciais que daí pudessem resultar, Kurt Cobain começa a ponderar alternativas, com as suas escolhas a recair em opções como “Verse, Chorus, Verse” (o título de um dos outtakes de “Nevermind”) e, também na lista, encontrava-se “In Utero”, que provinha de um poema de Courtney Love. Influenciado pelo seu casamento, o álbum daria a conhecer temas como “Milk It”, uma espécie de resumo da união criativa do casal que acabaria por influenciar a composição de êxitos como “Pennyroyal Tea” ou “Heart-Shaped Box” (“Caixa em forma de coração”), uma referência ao primeiro presente que Courtney ofereceu a Kurt e cujo título inicial era “Heart-Shaped Coffin” (“Urna em forma de coração”). Num álbum marcado por mudanças, Cobain seria também aconselhado por Courtney a repensar o título, por ser demasiado sombrio. Seguiram-se outros exemplos: a crítica à imprensa contida em “Radio Friendly Unit Shifter” (“Para Passar na Rádio e Vender às Carradas”) era originalmente baptizada de “Nine Month Media Blackout” (“Nove Meses de Bloqueio à Comunicação Social”), e “All Apologies” era simplesmente chamada de “La, La, La… La”. Das dezoito músicas que Kurt tinha idealizadas à entrada em estúdio, doze chegariam ao alinhamento final de “In Utero”.

Por entre as gravações nos Pachyderm Studios, no Minnesota, as partidas telefónicas a Eddie Vedder, dos Pearl Jam, e brincadeiras como incendiarem as próprias calças, “In Utero” chegava às fases finais em metade do tempo que “Nevermind” exigira não muito antes. «As coisas estavam melhores. Deixámos as cenas pessoais à porta e foi uma vitória», viria a confidenciar Krist Novoselic, que a par com Kurt Cobain via em “In Utero” o seu melhor trabalho de sempre. De facto, chegados a 1993, as letras de Cobain atingiam um novo grau de profundidade que nunca ficava atrás das composições musicais, que encontravam agora todo um novo nível de complexidade, levando o ouvinte na descida ao abismo da dependência de drogas. Se “Pennyroyal Tea” fazia lembrar os Beatles, “Very Ape” e “Radio Friendly Unit Shifter” eram apostas mais frenéticas e pujantes. O lado punk rock dos Nirvana vinha também à tona com “Milk It”, e “Serve The Servants”, com os versos “I tried hard to have a father / but instead I had a dad. / I just want you to know that I don’t hate you anymore. / There is nothing I could say that I haven’t thought before” acrescentava mais um nome à lista de inspirações já composta por Courtney Love e a filha Frances: Donald Leland Cobain, o pai de Kurt.

Com o produtor Steve Albini a ser convocado para ajudar a banda a conseguir um som mais cru, o resultado final não os convenceria de todo, considerando as misturas finais demasiado austeras. Tais palavras chegariam à imprensa, com o Chicago Tribune a anunciar que tanto os Nivana como a Geffen odiavam o disco e a aniquilar qualquer esperança de os fãs verem o produto final ser lançado. Tal levou Kurt a pronunciar-se sobre o assunto, tendo escrito num comunicado, «Não tem havido pressão da nossa editora para modificar as faixas». Apesar dos desmentidos, a produção não satisfazia mesmo os responsáveis da Geffen e em Maio, depois ter figurado na lista de possíveis produtores de “Nevermind”, o nome de Scott Litt voltava a fazer parte das escolhas dos Nirvana, que era assim contratado para tornar “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” mais apelativas para a rádio.

No seu diário, Kurt delineou um plano que previa o lançamento da versão de Steve Albini na forma de “I Hate Myself and I Want to Die” apenas no formato vinil, cassete e cartucho, e “Verse, Chorus, Verse” editado um mês depois, reunindo os temas remisturados por Scott Litt. A editora recusou e, como todos sabemos, não foi isto o que aconteceu.

Seguia-se um período conturbado na vida pessoal de Kurt, em contraste com o sucesso que a banda gozava. “Nevermind” saía finalmente do top da Billboard, dois anos após a sua edição, e os Nirvana davam concertos e ganhavam prémios na MTV. A 21 de Setembro, “In Utero” era finalmente lançado nos Estados Unidos. Na Europa já tinha chegado uma semana antes. Entrou directamente para o primeiro lugar do top e vendeu 180 mil cópias só na primeira semana. Apesar de reunirem todas as condições para o fracasso, os Nirvana chegavam ao topo outra vez!