In Utero: Sessões abandonadas (parte 3)



«Quem quer que fosse gravar o sucessor de “Nevermind” iria passar por um mau bocado.»

(Jack Endino)



Laundry Room Studio
Abril de 1992 – Seattle, Washington, EUA

Nirvana:
Kurt Cobain (voz, guitarra)
Krist Novoselic (baixo)
Dave Grohl (bateria)

Crew:
Barrett Jones (produtor)

Alinhamento:
[O] Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
[O] Forgotten Tune (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
Legenda: [O] Oficialmente editado / [N] Não oficial / [X] Não editado / [?] Não confirmado
Nota: Devido a um bug, o Spotify nem sempre irá tocar a música correspondente à ligação, direccionando o ouvinte para o álbum onde a faixa está inserida. Para chegar à faixa certa, o link deve ser copiado e colado directamente no campo de pesquisa da aplicação do Spotify.

Em Abril de 1992, aquando da passagem dos Nirvana pelo estúdio Laundry Room, a banda gravaria duas demos instrumentais para integrar o alinhamento daquele que seria o seu terceiro longa-duração, “In Utero” (até então intitulado “I Hate Myself And I Want To Die” (“Odeio-me e quero morrer”). Esta sessão seria abandonada antes sequer de Kurt Cobain adicionar as vozes. No livro “In Utero”, de Gillian Gaar, pode ler-se sobre “Frances Farmer”: «Ainda que mais lenta que na sua versão final, este take inicial mostra que os arranjos musicais já estavam no seu lugar.»


Word of Mouth Productions
25-26 Outubro 1992 – Seattle, Washington, EUA

Nirvana:
Kurt Cobain (voz, guitarra)
Krist Novoselic (baixo)
Dave Grohl (bateria)

Crew:
Jack Endino (produtor)
Phil Ek (assistente)

Alinhamento:
[X] Dumb (instrumental)
[X] Dumb (instrumental)
[O] Dumb (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
[O] Jam [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
[X] Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle (instrumental)
[X] Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle (instrumental)
[O] tourette’s (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
[X] Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle (instrumental)
[X] Pennyroyal Tea (instrumental)
[O] Pennyroyal Tea (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
[X] Rape Me (instrumental)
[O] Rape Me [With The Lights Out, 2004]
[O] Radio Friendly Unit Shifter (instrumental) [In Utero – Deluxe Edition, 2013]
Legenda: [O] Oficialmente editado / [N] Não oficial / [X] Não editado / [?] Não confirmado
Nota: Devido a um bug, o Spotify nem sempre irá tocar a música a que corresponde a ligação, direccionando o ouvinte para o álbum onde a faixa está inserida.

Decididos a afastarem-se da produção do álbum anterior e em regressar às origens, os Nirvana rodeavam-se de rostos familiares no estúdio Word of Mouth Productions, anteriormente conhecido como Reciprocal Recording, onde o trio já havia gravado “Bleach” alguns anos antes. O produtor Jack Endino viu-se cercado por uma atmosfera completamente diferente da experienciada no passado, descrevendo-a como «muito intensa». Ao portal “Verse Chorus Verse: The Recording History of Nirvana”, Endino desenvolve: «Havia algo de negro no ar que tornava as coisas disfuncionais. As pessoas não comunicavam entre si e o Kurt estava distanciado dos outros, numa espécie de realidade diferente. Fiquei muito desconfortável e parecia que estavam todos irritados. Simplesmente não eram a mesma banda que já tinham sido.»

As sessões não arrancaram da melhor maneira, com Kurt Cobain a faltar no primeiro dia. «Ele não apareceu no primeiro dia. Não apareceu, não ligou, nada.» Chocado com a atitude de Kurt Cobain por não corresponder ao que conhecia de colaborações anteriores, Jack Endino comenta: «Marcar o estúdio e depois não aparecer foi algo que o Kurt nunca fez antes.» Apesar de comparecer na sessão do segundo dia, a atenção de Kurt Cobain estava presa à presença de Courtney Love, que fez-se acompanhar da filha do casal, Frances. «Causou alguma distracção», admite o produtor. «A Courtney apareceu no estúdio com a Frances e de repente toda a atenção estava direccionada para o bebé. A Frances só tinha duas semanas ou algo assim. Mas tenho que dizer que ambos pareciam muito fofos com o bebé. Não podíamos fazer nada a não ser sorrir e lidar com isso. Era um bebé, eles tinham acabado de ser pais e tínhamos que deixá-los fazer a cena deles.»

Os Nirvana gravariam a base de seis temas: “Dumb”, “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”, “tourette’s”, “Pennyroyal Tea”, “Rape Me” e “Radio Friendly Unit Shifter”. “Rape Me” foi a única que viu a voz de Kurt Cobain ser registada. «A Frances estava sentada ao colo de Kurt e levaram-na ao microfone enquanto ele cantava», descreve Jack Endino, que considerou o resultado final algo perturbador. «Para além de ter cantado com uma voz de quem fumou muitos cigarros, existe o choro de um bebé de fundo. É algo que arrepia-me. Creio que o Kurt queria perturbar as pessoas com essa justaposição.» Endino expressou também um carinho especial por um improviso saído destas sessões. «É excelente!», diz com entusiasmo. «São quatro minutos de um ataque de guitarra, algo que não ouves em nenhum dos discos deles. Raramente tens uma oportunidade de os ver tocar dessa maneira.» Este jam, assim como as demos gravadas nesta sessão de estúdio, seriam disponibilizadas na edição deluxe dos 20 anos de “In Utero”. Por sua vez, “Rape Me”, com a participação do bebé Frances, seria dada a conhecer na box “With The Lights Out”, de 2004.

Com o conhecimento de que a banda preparava-se para gravar um novo disco, Endino mostrava-se apreensivo devido à tensão que se verificava durante as sessões, desenvolvendo sentimentos mistos quanto à hipótese de vir a produzir o próximo trabalho. «Gravar estas demos já foi suficientemente desconfortável ao ponto de não me conseguir imaginar a gravar um álbum com eles», explica. «Percebi que quem quer que fosse gravar o sucessor de “Nevermind” ia passar por um mau bocado.» O produtor acrescenta: «Durante as sessões de gravação, só falavam do [Steve] Albini. O Kurt dizia-me, ‘Então, o que achas se trabalhássemos com o Albini para o novo disco?’ Eu ia dizer o quê? ‘Não. Deviam trabalhar comigo.’ Simplesmente mantive-me calado. Era óbvio que a editora estava à espera de um “Nevermind” Versão 2, algo que a banda não iria fazer, de maneira nenhuma. Diziam a toda a gente que os quisesse ouvir que iam gravar um disco de punk rock muito agressivo. Então, o produtor que acabassem por escolher para o trabalho, iria ficar entre a espada e a parede; ou teria que ser um perfeito idiota com a banda e acabaria odiado por eles, ou fazia exactamente o que a banda pedia e levava em cima da editora. Provavelmente, a única pessoa no mundo capaz disso, seria o Albini. É alguém que não só consegue o que a banda pretende mas também pode fazer frente à editora e dizer-lhes ‘não’. Receio que eu não fosse capaz disso. Muito honestamente, pensava ‘Se eles pedirem-me para produzir o disco eu faço-o, mas se não me pedirem não me vou queixar.»

Os problemas de Jack Endino agravaram-se quando foi visitado no estúdio pela polícia. A razão? Dave Grohl tocava bateria com demasiada força. «Tocava com tanta força que passava pelo isolamento das paredes», recorda o produtor. «Foi apenas a segunda queixa relacionada com o ruído que alguma vez tivemos! Senti-me embaraçado, mas por essa altura já estavam quase a terminar.» Endino procurou obter alguma cooperação por parte dos agentes da polícia ao falar da importância dos Nirvana: «Disse-lhes, ‘Sabem, são os Nirvana que estão aqui. São uma banda enorme.’ Mas o agente respondeu, ‘Não quero saber quem está aqui. Têm que baixar o volume.»

Os Nirvana não regressariam para completar as demos, adicionar as vozes ou misturar o material gravado.