Quando Kurt Cobain produziu “Houdini”, dos Melvins

No Verão de 1983, um jovem Kurt Cobain com apenas 16 anos passaria por um momento transformador que viria a desempenhar um papel fulcral no desenvolvimento do seu estatuto lendário: Via os Melvins ao vivo pela primeira vez. Nos seus diários, Cobain escreveu: «Lembro-me de estar no hipermercado Thriftway, em Montesano, Washington, quando um repositor de cabelo curto, meio parecido com o gajo dos Air Supply, deu-me um panfleto que dizia: ‘Festival Them. Amanhã à noite no parque de estacionamento por trás do Thriftway. Música rock ao vivo. Entrada livre.’ Monte era uma terriola pouco acostumada a concertos de rock ao vivo, povoada por uns poucos milhares de madeireiros e suas mulheres submissas. Fui numa carrinha com uns amigos ganzados. E lá estava o repositor sósia dos Air Supply, com uma Les Paul onde tinha colado um anúncio aos cigarros Kool recortado de uma revista. Tocavam mais depressa do que alguma vez imaginava que se pudesse tocar música e com mais energia do que os meus discos dos Iron Maiden me podiam oferecer. Era daquilo que eu andava à procura. Ah, punk rock. Os outros ganzados estavam a apanhar seca e só gritavam: ‘Toquem uma dos Def Leppard.’ Meu Deus, nunca odiei tanto aqueles cabrões. Cheguei à terra prometida no parque de estacionamento de um hipermercado e descobri a minha grande vocação.»



«Fizemos algumas sessões com o Kurt Cobain mas chegou a um ponto em que ele estava tão descontrolado que basicamente despedimo-lo e cada um seguiu o seu caminho, o que foi lamentável.»

(Buzz Osborne, Melvins)


O repositor era Roger “Buzz” Osborne, vocalista e guitarrista dos Melvins. Buzz, um pouco mais velho, frequentava o mesmo liceu que Kurt Cobain e tornava-se assim o seu mentor, emprestando-lhe discos e livros de punk rock, e edições da revista Creem, cuja linha editorial dava ênfase ao punk rock e ao new wave. Daí para a frente, Kurt Cobain passaria a ser uma presença frequente nos ensaios dos Melvins. Seria lá que travaria amizade com o baterista Dale Crover, com quem formaria os Fecal Matter, a sua primeira banda a sério, e que seria emprestado mais tarde aos Nirvana para a gravação das demos de “Bleach” (1989) e para alguns concertos esporádicos, divididos entre 1988 e 1990. Mas não era só Kurt Cobain que engolia cada palavra dita por Buzz Osborne, que atraía uma dezena de seguidores apelidados de Cling-Ons (um nome inventado por Buzz com uma referência a Star Trek), ávidos por conselhos e cassetes gravadas, para que se pudessem embrenhar mais profundamente no mundo do punk rock. Buzz desempenharia um papel importante na formação musical do jovem Cobain, convidando-o a participar em jam sessions e estando igualmente presente durante alguns conflitos domésticos de Kurt. Os anos foram passando e, no início da Primavera de 1987, Buzz mudou-se para a Califórnia. Kurt, que viria a reencontrar o amigo não muito depois, sentia-se agora livre para deixar que as suas influências pop então ocultas (pois nunca agradariam Buzz) tomassem as rédeas e ditassem um novo caminho onde pudesse desenvolver uma voz e crescer artisticamente.

O que aconteceu depois, todos sabemos: o aluno ultrapassava o mestre, e Kurt deixava de ser o roadie baixinho dos Melvins para ser o líder dos Nirvana. No entanto esta ligação nunca seria esquecida, com os Melvins e os Nirvana a partilharem muitos momentos em estúdio e na estrada. Num artigo publicado na Talk House, em que Buzz Osborne lança duras críticas ao documentário “Montage of Heck” e a Courtney Love, este escreve: «A minha banda tocou com os Nirvana no seu último concerto. Estive lá no início e também no fim, nos momentos muito bons e igualmente nos muito maus.» No final de 1992, quando “Nevermind” dos Nirvana dominava há muito as tabelas de vendas, essa ligação traduzir-se-ia num convite para Kurt Cobain produzir “Houdini”, o quinto álbum dos Melvins e a estreia numa editora major. Infelizmente, o convite coincidiu com um período em que o consumo de heroína por parte de Kurt Cobain estava descontrolado, com aquilo que poderia ter sido uma parceria lendária a tornar-se num processo infutífero. «”Houdini” foi o primeiro álbum que lançámos pela Atlantic Records, e certamente o nosso disco mais vendido de sempre, embora esse dinheiro não desse para eu comprar um Rolls Royce ou algo desse género», diz Buzz Osborne numa entrevista à revista Kerrang!, em 2008. «Tudo isso veio com o maremoto causado pelos Nirvana, e tenho a certeza que se não fosse por isso nunca teríamos conseguido o interesse de uma editora major. Queríamos gravar um disco que não alienasse os nossos fãs e do qual gostássemos ao mesmo tempo. Também sabíamos que não estávamos sequer perto de sacudir o pó de um disco de platina, sabes? Fizemos algumas sessões com o Kurt Cobain mas chegou a um ponto em que ele estava tão descontrolado que basicamente despedimo-lo e cada um seguiu o seu caminho, o que foi lamentável, pois acho que teria sido muito divertido. Não tenho grandes memórias dessa altura, pois foi uma tragédia imensa.»

O convite para o cargo de produtor seria estendido a Kurt Cobain pelos Melvins depois de um responsável pela Atlantic Records o ter sugerido. O nome de Cobain acabaria por figurar nos créditos de “Houdini” como co-produtor, ainda que o seu envolvimento seja questionável. No livro “Gimme Indie Rock: 500 Essential American Underground Rock Albums 1981-1996”, o autor Andrew Earles escreve que Kurt Cobain passou a maior parte das sessões de gravação a dormir. Jonathan Burnside, engenheiro de som e colaborador dos Melvins, corrobora essa afirmação: «Não é propriamente fácil conseguir memórias das gravações de “Houdini” com o Kurt Cobain e os Melvins. Havia uma má comunicação, drogas, a especulação por parte da editora, reabilitação, horários que iam à vida, facadas nas costas e créditos errados… Foi um disco do inferno.»

«As músicas atribuídas ao Kurt foram definitivamente misturadas pelo Jonathan», garante o engenheiro de som assistente Tom Doty, à LiveNirvana. «O Kurt passava a maior parte do tempo a dormir no sofá em frente à consola. Levantou-se uma vez para pedir que o volume das guitarras ficasse mais alto (já não me lembro em que música foi) e para perguntar se tínhamos refrigerantes grátis. Tudo o que tínhamos era uma máquina de vending, pelo que não tínhamos refrigerantes grátis.» Contudo, Doty não descarta de todo o trabalho de Kurt Cobain no disco, acrescentando: «Claro que poderão ter existido conversas fora do estúdio no que diz respeito às misturas e das quais eu não tinha conhecimento. Não estive presente durante as captações mas a julgar por aquilo que ouvi ele também não se envolveu muito nessas sessões. Ainda assim, foi muito bom para a banda, pois quem no seu perfeito juízo iria negar uma oportunidade de ter o Kurt Cobain a produzir um disco?»

Jonathan Burnside referiu à LiveNirvana que a contribuição mais tangível saída das mãos de Kurt Cobain foi no tema “Sky Pup”: «O Kurt tocou com a minha Fender Mustang e com a maioria dos meus pedais», recorda. «Como ele era esquerdino, tinha muitas limitações a tocar numa guitarra para destros, mas manipulei os pedais de efeitos enquanto ele tocava para poder acrescentar-lhe algo.» Apesar de tudo, os Melvins sentiram-se gratos pelo facto de Kurt Cobain não se ter intrometido no disco: «Eu queria que o Kurt contribuísse criativamente e não que estivesse ali a mexer em botões», disse Buzz Osborne à Guitar World. «Eu estava esgotado nessa altura e pensei que ter um novo colaborador criativo iria ajudar-nos, mas não foi isso o que aconteceu. Eu e o Dale [Crover] acabámos por fazer quase tudo sozinhos.»

Numa entrevista publicada em 1993, Kurt Cobain diria: «Ainda não sei qual a descrição técnica daquilo que faz um produtor. Apenas supervisionei tudo. Basicamente observei e fiz alguns comentários e sugestões. Também montei os microfones em alguns temas e fiz a mistura.» Cobain esteve presente nas sessões de estúdio onde foram gravados os temas “Hooch”, “Joan of Arc”, “Set Me Straight” e “Spread Eagle Beagle”, onde Cobain colabora na percussão.

Quanto a “Houdini”, não só foi a estreia dos Melvins por uma editora major como é também tido como um dos melhores discos de sempre da banda e aquele que gozou de maior sucesso comercial. Com os seus riffs sujos e uma bateria exigente, proporcionam um bom e intenso exercício de sludge metal, tal como se pode verificar em “Honey Bucket”, assim como uma aliança avassaladora entre grunge e doom metal que sobressai em temas como “Goin’ Blind” ou “Hooch”. Estima-se que “Houdini” tenha vendido mais de 100 mil unidades, chegando ao número 29 do top de vendas da Billboard. Quanto ao seu impacto, será suficiente dizer que raramente falha uma lista em que se dão a conhecer os melhores discos de grunge de sempre.

Ouve “Houdini” nesta ligação.