Nevermind: Conclusão (Parte 7)

Concluídas as sessões no Sound City, que decorreram durante a maior parte do mês de Maio de 1991, os Nirvana saíram novamente em tour mas não sem antes dedicarem mais um par de dias à sessão fotográfica oficial de “Nevermind”, com o fotógrafo nova-iorquino Michael Lavine. Na hora de escolher uma fotografia para o encarte interior do disco, Kurt Cobain escolheria uma foto na qual mostrava o dedo do meio. Na estrada, a abrir uma mão cheia de concertos para os Dinosaur Jr. ao longo da Costa Oeste dos Estados Unidos e no México, “Smells Like Teen Spirit” arrancava as melhores reacções das plateias. Terminado o compromisso, Kurt Cobain viajava novamente para Los Angeles para terminar a capa do disco. Com mais uma tarefa riscada da lista, o músico, que estava prestes a editar um dos álbuns mais vendidos de sempre, chegava ao seu apartamento em Olympia, no Estado de Washington, apenas para perceber que fora despejado, tendo inclusivamente que vender alguns dos seus animais de estimação de forma a conseguir dinheiro.


O mês de Agosto chegava e os Nirvana partiam uma vez mais para Los Angeles, para iniciarem a campanha de promoção do álbum e a preparação de uma nova digressão pela Europa. Seguia-se um showcase para os representantes da indústria no Roxy Theatre, e a rádio universitária KXLU tocava “Smells Like Teen Spirit” pela primeira vez, utilizando um exemplar da presnagem de teste do vinil. As gravações do vídeo deste tema eram também iniciadas, com Kurt Cobain a desenvolver o conceito e a dirigir o vídeo, o que causou conflitos com o realizador Sam Bayer. Alcoolizado, a atitude de Kurt durante as gravações ajudaria a captar toda a intensidade que conhecemos do vídeo, vendendo assim a revolta a toda uma geração ansiosa por explodir. A multidão descontrolada que acorre ao espaço da banda recria alguns dos primeiros concertos da banda, quando tocavam em salas sem palco, e há até uma piada muito pessoal de Kurt, ao incluir um funcionário da escola a empurrar um balde e uma esfregona, numa clara representação do antigo emprego de Kurt na escola secundária de Aberdeen (a mesma onde havia estudado).

Já em território Europeu, os Nirvana fazem-se acompanhar dos Sonic Youth numa digressão de dez datas que marcaria um ponto de viragem para a banda. É aqui que se dá a primeira aparição da banda no festival britânico Reading, que encabeçariam um ano mais tarde e envoltos de uma grossa camada de dúvida e controvérsia. Apenas alguns anos antes, os Nirvana encontravam públicos compostos por pouco mais de dez pessoas na tour de promoção de “Bleach”, e agora tocavam para 70 mil fãs fiéis. A popularidade dos Nirvana estava em ascensão e todos tiravam partido disso, deixando camarins destruídos e nenhum extintor por accionar por onde quer que passassem. Apesar de os Nirvana estarem a dar os últimos passos para se transformarem num dos pesos pesados da música, Kurt Cobain finalizava a digressão da mesma forma que a começara: a mesma t-shirt dos Sonic Youth e as mesmas calças de ganha; as únicas que tinha.

Quando, no dia 24 de Setembro, “Nevermind” era oficialmente posto à venda nos Estados Unidos, a MTV fazia a cobertura da notícia exibindo Krist Novoselic em cuecas a jogar Twister. “Nevermind” precisaria de duas semanas para entrar no Top 200 da Billboard, estreando-se na 144ª posição, e a partir daí, todas as semanas, o álbum dava saltos gigantes, conseguindo uma das mais rápidas subidas ao Top 40. Contrariando todas as expectativas, a verdade é que “Nevermind” teria atingido os primeiros lugares da tabela bem mais rápido, não fosse a produção moderada inicial de apenas 46.251 exemplares, o que levou a que o disco estivesse esgotado durante algum tempo. Com um sucesso precoce ausente de campanhas promocionais bem orquestradas e de exposição nas rádios, o vídeo de “Smells Like Teen Spirit” viria a causar sensação nos estúdios da MTV, passando para a exibição regular do canal em Novembro, dois meses depois da edição de “Nevermind”. A fama dos Nirvana acelerava, com todos os concertos esgotados e milhares de fãs a tentar desesperadamente – e sem sucesso – conseguir um bilhete, uma vez que a digressão promocional de “Nevermind” fora agendada antes de a banda experienciar todo este sucesso e de não ter cancelado as datas existentes em detrimento de salas maiores. Esta decisão, ou falta dela, levou a que os membros da banda ficassem exaustos e continuassem a sofrer consecutivamente problemas de som. Para além disso, Kurt Cobain sofria devido à abstinência de drogas. Seguiam-se concertos explosivos e literalmente demolidores, com alguns incidentes registados. No Outono de 1991, a heróina, até então utilizada por Kurt Cobain como uma mera fuga recreativa, tornava-se um hábito diário. Se por um lado Cobain dava os primeiros passos rumo a uma queda em espiral, por outro as vendas de “Nevermind” cresciam exponencialmente, ultrapassando rapidamente a barreira do disco de ouro com meio milhão de cópias vendidas. Enquanto isso, Cobain, que já era alvo de uma cobertura mediática considerável principalmente no Reino Unido, não tinha uma residência fixa e contava os trocos para comprar meias. No final de Novembro, “Nevermind” atingia a marca de um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos, valendo aos Nirvana uma participação no célebre programa televisivo “Top Of The Pops”. Chateado com o facto de ter que fazer playback instrumental de “Smells Like Teen Spirit”, e cansado com o facto de exigerem este tema em particular, Kurt Cobain cantou num tom muito arrastado enquanto deixava a guitarra desprovida de qualquer acção, gerando níveis de fúria acentuados entre os produtores. Entre concertos que integravam a tour e actuações de beneficiência, os Nirvana corriam os Estados Unidos e a Europa, encerrando 1991 com um espectáculo de véspera de Ano Novo em São Francisco. Foi neste concerto, com lugar no Cow Palace, que os Pearl Jam abriram a noite ao som de um trecho de “Smells Like Teen Spirit”, com o vocalista Eddie Vedder a brincar ‘Lembrem-se que nós a tocámos primeiro.» Com o ano de 1992 ao virar da esquina, os Nirvana tornavam-se a banda mais popular de mundo.


Seguir-se-ia uma passagem pelo estúdio do célebre programa de televisão Saturday Night Live, com os Nirvana a protagonizarem mais um momento controverso. Durante os créditos, já depois de terem destruído o palco no final de “Territorial Pissings” (uma escolha que não agradou à produção), Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl beijam-se na boca. Ao mesmo tempo, “Nevermind” atinge o primeiro lugar do top de vendas, destronando assim Michael Jackson e o seu “Dangerous”. Kurt Cobain sofreria mais tarde uma overdose causada pela heroína, sendo a sua reanimação necessária.

“Nevermind” foi o álbum dos Nirvana que mais vendeu, e continua a vender. Contam-se mais de 30 milhões de cópias em todo mundo, com o disco a chegar novamente aos tops de vendas em 2017, graças à ascensão do formato vinil e das reedições comemorativas de que o álbum foi alvo. A edição Deluxe de “Nevermind”, lançada aquando do 20º aniversário do seu lançamento, inclui algum do trabalho registado nas sessões dos Smart Studios e do The Music Source, para além de temas tocados ao vivo em actuações tão marcantes como foi a do Paramount Theatre, em Seattle.