Nevermind: Introdução (Parte 1)

«Desde o lançamento de “Nevermind”, a 24 de Setembro de 1991, até à morte de Kurt Cobain, ocorrida no dia 5 de Abril de 1994, passar-se-iam apenas 924 dias. Foi este o curto espaço de tempo necessário para se criar uma lenda.»



Foi numa sexta-feira 13, no mês de Setembro de 1991, que deu-se a festa de lançamento de “Nevermind”, o segundo disco dos Nirvana. Vendo na data um bom presságio, Kurt Cobain e companhia escolhem um bar minúsculo em Seattle chamado Re-bar e convidam pessoas ligadas à indústria musical que assentiram ludibriados pela comida e bebidas grátis. Os convites diziam “Nevermind Triskaidekaphobia, here’s Nirvana” (algo como “Deixalá a triscaidecafobia, aqui estão os Nirvana”), numa alusão à superstição pelas sextas-feiras 13 e o clube rebentava pelas costuras com músicos, jornalistas musicais e pessoas com os mais variados poderes na indústria.

Em 1987/1988, numa carta redigida mas nunca expedida ao baterista Dale Crover (o músico acompanhou os Nirvana numa fase inicial e passou igualmente pelos Melvins), Cobain comentava o hype que os Nirvana começavam a gerar na cena local depois de se terem mudado para a cidade de Olympia e gravado a primeira demo, que lhes conseguiria tempo de antena na estação de rádio KCMU. Adoptando um tom largamente exagerado, Cobain mencionava o desconforto que sentia quando chegava a hora de conhecer pessoas ligadas à Sub Pop (a primeira editora da banda) e à indústria, e por enfrentar um público que, no seu entender, comparecia nos concertos com o único propósito de comprovar se todo aquele falatório era justificado, incluindo membros de outras bandas de Seattle. O cenário pintado por Cobain não era de todo real, mas o desconforto descrito seria profético, com Kurt Cobain a refugiar-se numa cabina fotográfica e oculto por uma cortina de pano durante grande parte da festa de lançamento de “Nevermind”.

Em 1990, os Sonic Youth vendiam 200 mil cópias de “Goo” e entravam pela primeira vez nas tabelas de vendas dos Estados Unidos. Na festa falava-se da hipótese de “Nevermind” vender metade desse número e um elemento da Sub Pop, numa previsão altamente optimista, afirmava que o novo disco dos Nirvana iria ultrapassá-lo, algo que Cobain ouviria e responderia com um franzir do sobrolho, de tão irrealista que era esse cenário. De facto, nem a DGC Records (uma chancela menor da Geffen onde eram depositadas as bandas com menos potencial) que comprou o contrato discográfico dos Nirvana à Sub Pop, estava convencida de que a banda de Seattle era uma aposta milionária, uma vez que produziram inicialmente pouco mais de 46 mil cópias do álbum. O desconforto de Kurt, que facilmente apegava-se aos restantes elementos da banda, depressa cresceu e evoluiu para uma guerra de comida que ditou a expulsão dos Nirvana da sua própria festa, com o baixista Krist Novoselic e os seus dois metros de altura quase a chegarem a vias de facto com o segurança.

Apenas três dias depois, a banda marca presença numa loja de música chamada Beehive para o que estava previsto ser apenas uma sessão de autógrafos. Esperavam-se 50 pessoas, atestando assim o facto de ninguém estar à espera do sucesso que “Nevermind” e a memorável “Smells Like Teen Spirit” iriam obter nas semanas seguintes. Quem esteve presente, relata que às duas da tarde já havia uma fila com mais de 200 pessoas, sendo que o evento teria início apenas cinco horas depois. Em vez de simplesmente autografarem discos, Kurt Cobain decide tocar ao vivo (ver vídeo do concerto abaixo), com miúdos em cima das prateleiras dos discos e a arrancar todos os pósteres que encontravam para conseguir um autógrafo. Os Nirvana tocariam durante 45 minutos, até começarem a ser esmagados pelo público. Também as cópias de “Nevermind” que foram colocadas à venda não resistiram à euforia dos fãs, esgotando de imediato.

Por esta altura, “Smells Like Teen Spirit” já tinha sido lançado como single, falhando a entrada no top de vendas e conseguindo apenas a projecção que todos conhecemos quando, em Outubro desse ano, a MTV passou a emitir o vídeo insistentemente. Ainda que não tivesse sido oficialmente editado, “Nevermind” já tinha corrido a América do Norte e a Europa à boleia dos Dinosaur Jr. e dos Sonic Youth, com quem os Nirvana andaram em tour, e já no ano anterior temas como “Lithium”, “In Bloom”, “Polly” e “Breed” eram incluídos no alinhamento da tour promocional do single “Sliver”. “Smells Like Teen Spirit”, “Territorial Pissings” and “Drain You” juntavam-se à setlist um pouco mais tarde. A performance ao vivo de músicas que ainda estavam a um par de anos de serem editadas nunca foi algo de anormal nas escolhas dos Nirvana, pois muito do material editado após “Bleach” já havia sido criado e aguardava apenas uma conclusão satisfatória por parte de Cobain. “Rape Me”, por exemplo, que incluiu originalmente o alinhamento de “In Utero”, de 1993, era tocada ao vivo já em 1991, onde se podia ouvir um solo adicional que não entraria na versão final. O mesmo acontece com “Radio Friendly Unit Shifter”, por exemplo.

Inicialmente previsto chamar-se “Sheep” [“Ovelha”], Kurt Cobain só fixaria “Nevermind” como o título definitivo em Junho de 1991, quando o álbum já estava gravado e devidamente misturado. “Nevermind” representava uma metáfora da sua atitude perante a vida e que misturava duas palavras numa só, algo tão comum nas escolhas de Kurt Cobain para os títulos das suas músicas, onde muitas vezes se servia de jogos de palavras. A palavra “Nevermind” provinha também de um verso de “Smells Like Teen Spirit”, que se tornara a primeira aposta da banda para single, suplantando assim “Lithium” como escolha inicial. Depois de ver um programa de televisão sobre parto subaquático, Cobain esboçou uma ideia para a capa do disco que envolvia um bebé do sexo masculino a nadar debaixo de água atrás de uma nota de dólar, um conceito que ainda gera controvérsia nos dias de hoje. O verso da capa não ia muito mais longe no que à controvérsia diz respeito, com o músico a inserir uma imagem do macaco Chim Chim entre colagens de carne crua e vaginas. Muito do universo lírico de “Nevermind” inspira-se na relação falhada de Kurt Cobain com Tobi Vail, a baterista e fundadora das Bikini Kill. O título de “Smells Like Teen Spirit” refere-se a um episódio em que a então namorada de Dave Grohl e vocalista das Bikini Kill, Kathleen Hanna, grafitou numa parede “Kurt smells like Teen Spirit”, querendo assim dizer que Kurt Cobain estava impregnado com o odor resultante da marca de desodorizante utilizada por Tobi Vail.

Desde o lançamento de “Nevermind”, a 24 de Setembro de 1991, até à morte de Kurt Cobain, ocorrida no dia 5 de Abril de 1994, passar-se-iam apenas 924 dias. Os Nirvana eram a banda mais falada do momento, “Nevermind” viria a destronar “Dangerous”, de Michael Jackson, e Kurt Cobain ainda dormia no banco traseiro do carro devido às rendas em atraso. Menos de mil dias… Foi este o curto espaço de tempo necessário para se criar uma lenda.


Fotografia do artigo: KIRK WEDDLE