Nevermind: Os outtakes e a mistura (Parte 6)



«O Kurt percorreu a lista até ao fim e estava lá Andy Wallace, com Slayer escrito ao lado do nome, e disse ‘Tragam-me este tipo.’»

(Butch Vig)



Outtakes
Depois de uma primeira tentativa no estúdio da Reciprocal no início de Janeiro de 1990, e mais tarde nas sessões Smart (ambas com Chad Channing na bateria), os Nirvana voltavam a insistir em “Sappy”, desta vez no Sound City e agora com Dave Grohl. Nesta sessão, Kurt Cobain gravou a guitarra solo juntamente com um rascunho vocal, gravando depois um take da voz. Depois de fazer overdub com a distorção resultante do seu pedal Rat, Cobain pousou a guitarra e dirigiu-se à sala de controlo, dizendo que não queria continuar. «Não quero fazer isto», insistia. «Não estou a sentir a música neste momento. Vamos deixá-la.» Esta versão seria gravada num tom diferente das tentativas anteriores, abrindo sem a introdução instrumental e com algumas alterações a nível lírico. Também o solo de guitarra é ligeiramente diferente.

“Verse Chorus Verse” foi gravada ao vivo, com Cobain a providenciar um rascunho vocal. O músico faria ainda overdub de um total de três guitarras para complementar o baixo e a bateria. Ainda que o tema estivesse instrumentalmente finalizado, Cobain nunca chegaria a gravar a voz principal. Também “Old Age” seria gravada ao vivo, muito à semelhança de “Verse Chorus Verse”, sendo abandonada depois do overdub da guitarra ser finalizado.

O produtor Butch Vig tem ainda memória de um tema que disse chamar-se “Song In D” ter sido ensaiado no Sound City, ainda que não haja nenhuma documentação que o sustente. «O Kurt sentia-se um tanto desconfiado com esta música pois era muito melosa», recorda Vig. «Quis que ele terminasse a letra. Era uma música do género de “On A Plain” ou “About A Girl”, com um arpeggio meloso tocado em Ré. Pensei que poderia evoluir para mais um single.» Quando questionado se poderia ser uma primeira versão de “All Apologies”, Vig discordou, alegando que «’Song In D’ era muito característica». «Tentámos gravá-la mas o Kurt decidiu parar de trabalhar nela por soar ‘demasiado a R.E.M.’, razão pela qual eu queria fazê-lo!»

Todas estas gravações, à excepção de “Song In D”, vieram a público no Verão de 2015, em conjunto com outras demos ou versões alternativas de temas dos Nirvana. Todos os uploads no Youtube ou Soundcloud foram eliminados, existindo ainda alguns pontos activos de download na internet.

Mistura
Entre o Estúdio B do Sound City e os Devonshire Studios, os Nirvana, em conjunto com o seu produtor, finalizaram diversas misturas das faixas de “Nevermind”. «As primeiras misturas realizadas, antes do Andy Wallace ter-se juntado a nós, eram muito cruas, que era assim que a banda as queria», explica Butch Vig. O produtor recorda-se também que a dada altura, Kurt Cobain pediu-lhe para que removesse toda a tecnologia de ponta do som das guitarras, com Vig a protestar justificando que assim soaria demasiado turvo. Cobain queria ainda enterrar mais os vocais nas camadas sonoras. «Ele dizia que assim soava melhor e mais punk. Eu defendia-me dizendo ‘A tua voz é o que estas músicas têm de mais intenso, e merece estar bem lá em cima nivelado com a música!» Para “Endless, Nameless”, Vig deixou que a banda se apoderasse da mesa de som para trabalhar a mistura. «O Krist, o Dave e o Kurt misturaram essa música. Puseram-se atrás da mesa e andaram com os faders para cima e para baixo.»

James Johnson, o engenheiro de som dos Devonshire Studios, recorda o seu envolvimento na mistura de “Nevermind”: «Estive envolvido enquanto assistente do Butch na mistura inicial de “Nevermind”. A banda esteve no estúdio da Devonshire durante três ou quatro dias, altura em que decidiram realizar a mistura num estúdio diferente. Não captámos nada no Devonshire, no entanto lembro-me do Kurt ter gravado um ou outro overdub com a guitarra e de ter corrigido algumas linhas vocais. O Kurt gravou a palavra ‘NIRVANA’ numa cadeira de madeira posicionada no fundo da sala de controlo.»

Apesar de Butch Vig ter sido contratado para produzir e misturar o álbum, as sessões ultrapassaram o calendário previsto, com os managers da banda e a editora a fazer pressão para adicionar uma cara nova ao processo. «Não foi nada de especial», diz Vig. «Todos concordamos em encontrar outra pessoa com os ouvidos frescos para misturar o disco.» Gary Gersh, da Geffen, enviou uma lista de potenciais candidatos: «O Scott Litt estava no topo da lista», relembra Vig,«mas o Kurt disse ‘Não, não quero um som como o dos R.E.M.’. Ed Stasium também estava na lista, e Kurt comentou ‘Não, não quero um som como o dos Smithereens’. Percorreu a lista até ao fim e estava lá Andy Wallace, com Slayer escrito ao lado do nome, e Kurt disse ‘Tragam-me este tipo.’»

A mistura seria reconduzida para os Scream Studios: «Basicamente, deixei que o Andy se acostumasse às faixas durante umas horas», comenta Vig. «Quando tinha tudo alinhado, ligava-me e eu fazia-me acompanhar pela banda para fazermos uma análise minuciosa. Misturávamos uma ou duas músicas por dia, o que resultou num total de dez dias para misturar o disco.»

Andy Wallace conferiu uma sonoridade mais ampla a “Nevermind”, duplicando canais e acrescentando delays às guitarras e outros elementos. Trabalharia também um pouco mais a voz, sem se permitir a grandes exageros. «Só queríamos garantir que as misturas continuavam a soar orgânicas», diz Vig. «Parte da razão pela qual o som não estava tão bom, prendia-se com o facto da sala onde se captou o som da bateria não ter funcionado tão bem, pelo que o Wallace usou reverb digital para o corrigir e deu um pouco mais de estímulo às baterias com os equalizadores e samples que misturou com o pedal do bombo e a tarola.»

Apesar de Andy Wallace ter sido uma escolha de Kurt Cobain e da banda ter participado no processo de mistura, Cobain queixar-se-ia mais tarde à imprensa do resultado final. «Ao reflectir na produção de “Nevermind”, posso dizer que sinto-me embaraçado», dizia Kurt ao biógrafo Michael Azerrad. «Está mais próximo de um disco dos Mötley Crüe do que de um disco de punk rock.» Grohl também não ficaria satisfeito com o tratamento dado à bateria. «Ele [Andy Wallace] mexeu muito na bateria, fazendo-a soar mais digital. Toda a produção estava esquisita.»

Contabilizados os gastos extra, onde se incluíam as despesas com Andy Wallace, o custo de “Nevermind” duplicava, passando do orçamento inicial de $65,000 para $120,000. Mais tarde, Jeff Gilbert da revista Guitar World mencionaria a Kurt Cobain as despesas relacionadas com o disco, com Cobain a responder com o seu toque humorístico, «Não me recordo, tenho Alzheimer.»