Nevermind: Smart Sessions (Parte 2)

Smart Studios
2-6 Abril, 1990 – Madison, Wisconsin, EUA



«Existia alguma apreensão em relação à escolha das músicas para gravar. Eram tão diferentes de “Bleach”… Foi uma mudança drástica.»

(Chad Channing)


Nirvana:
Kurt Cobain (voz, guitarra)
Krist Novoselic (baixo)
Chad Channing (bateria)

Crew:
Butch Vig (produtor)
Doug Olsen (engenheiro de som)

Alinhamento:
[O] Immodium (Breed) [Nevermind, 2011 – 20th Anniversary Deluxe Edition]
[O] Dive [Incesticide, 1992]
[O] In Bloom [Nevermind, 2011 – 20th Anniversary Deluxe Edition]
[O] Pay to Play (Stay Away) [Nevermind, 2011 – 20th Anniversary Deluxe Edition]
[O] Sappy [Nevermind, 2011 – 20th Anniversary Deluxe Edition]
[O] Lithium [Nevermind, 2011 – 20th Anniversary Deluxe Edition]
[O] Here She Comes Now [Heaven And Hell: A Tribute To The Velvet Underground, 1990]
[O] Polly [Nevermind, 1991]
Legenda: [O] Oficialmente editado / [N] Não oficial / [X] Não editado
Nota: Devido a um bug, o Spotify nem sempre irá tocar a música correspondente à ligação, direccionando o ouvinte para o álbum onde a faixa está inserida. Para chegar à faixa certa, o link deve ser copiado e colado directamente no campo de pesquisa da aplicação do Spotify.

Arrancava a primeira semana de Abril de 1990 e os Nirvana serviam-se de mais uma curta pausa na tour de promoção do seu álbum de estreia “Bleach”, editado em Junho do ano anterior, para entrarem no Estúdio A dos Smart Studios em Madison, no estado norte-americano do Wisconsin, para darem início às gravações daquele que seria o segundo longa-duração da banda com selo da Sub Pop. Com oito canções a serem registadas, um total de cinco viriam a ser incluídas em “Nevermind”, ainda que em versões diferentes. Entre as músicas escolhidas para gravar, encontravam-se “Here She Comes Now”, um original dos Velvet Underground para um álbum de tributo. “Breed” e “Stay Away” ainda não haviam sido rebaptizadas, com esta última a criticar as salas de espectáculo que cobravam às bandas para lá tocarem, e “Breed”, inicialmente conhecida como “Imodium”, fazendo alusão ao medicamento para a diarreia tomado por Tad Doyle, mentor dos Tad e companheiro de tour dos Nirvana, ainda que liricamente pouco ou nada estivesse relacionada com o músico de 140 quilos, que com os seus problemas ligados ao estômago tinha frequentemente emergências que forçavam a carrinha de tour a fazer paragens à beira da estrada para que Tad se pudesse aliviar.

Apesar do sucesso comercial de “Bleach” só ter chegado após a edição “Nevermind” em 1991, esta tour já tinha arrancado há dez meses, com Kurt Cobain e Krist Novoselic – acompanhados pelo baterista Chad Channing e o guitarrista Jason Everman – a darem início a uma longa viagem com partida na cidade de San Francisco, na Califórnia, e que os levaria à Europa, passando por países como Inglaterra, Holanda, Alemanha, Itália, Suíça, Bélgica, Áustria e Hungria.

No dia 1 de Abril, os Nirvana davam por terminado o mês de férias gozado em Março para conduzir uma nova etapa da tour no Norte dos Estados Unidos e no Canadá. Com arranque no Cabaret Metro, em Chicago, a banda dedicaria os seguintes dias às gravações de um novo disco que receberia como título “Sheep” [“Ovelha”], prosseguindo com os concertos ao vivo no mesmo dia em que faziam check-out nos Smart Studios, para levar a crueza e o punk rock de “Bleach” aos Estados do Wisconsin e Minnesota. Agora sem Jason Everman, que havia sido despedido após o primeiro mês na estrada, o trio com origem em Aberdeen, Washington, e mais tarde recolocado em Olympia, contratava o produtor Butch Vig para o trabalho de estúdio, uma decisão tomada depois de Kurt Cobain ter ouvido o álbum “12 Point Buck”, dos Killdozer, uma banda de noise rock e post-hardcore fruto dos Smart Studios e da localidade de Madison, onde os Nirvana encontravam-se agora. O contacto era estabelecido por Jonathan Poneman, da Sub Pop, que alegadamente convencia Vig do potencial dos Nirvana ao dizer ‘Estes tipos vão ser maiores do que os Beatles!’

Butch Vig, que mais tarde viria a ser baterista dos Garbage, recorda o arranque das sessões com um Kurt Cobain bastante calmo e silencioso, deixando a conversa para o baixista Krist Novoselic. «O Krist falou comigo sobre muitos álbuns de punk, perguntando-me se eu conseguiria alcançar esta ou aquela sonoridade», recorda Vig. «Eles não procuravam uma sonoridade limpa ou aguda, mas sim algo realmente pesado.» Para a maior parte das gravações, a banda serviu-se do seu próprio equipamento, à excepção de um amplificador Fender Bassman que Vig emprestou a Cobain para o registo de “In Bloom” e “Lithium”. «Usámos também a minha tarola da Yamaha em vários temas, que foi igualmente utilizada em “Gish”, dos Smashing Pumpkins», comenta o produtor que recorda também ter aplicado placas de contraplacado no piso do estúdio para enaltecer a sonoridade “ao vivo” do estúdio.

Enquanto que a maioria dos arranjos musicais encontravam-se finalizados quando os Nirvana deram entrada nos Smart Studios, o baterista Chad Channing lembra-se que um par de músicas ainda exigia alguma afinação. «Nesta sessão em particular, lembro-me que levou-nos mais tempo a conseguir os sons certos. Havia uma certa hesitação ao gravar alguns dos temas devido à falta de preparação que o Kurt sentia que tinham. Existia também alguma apreensão em relação à escolha das músicas para gravar. Eram tão diferentes de “Bleach”… Foi uma mudança drástica.»

Vig admite ter achado o comportamento de Cobain um tanto desconcertante. «O Kurt era encantador e espirituoso, no entanto apresentava mudanças de humor. Tanto estava completamente envolvido como de repente parecia que apagava-se uma luz qualquer e sentava-se num canto, isolado. Eu não sabia como lidar com isso.» O engenheiro de som, Doug Olsen, descreve Channing como «um bom tipo, mas parecia desconfortável». «Havia definitivamente alguma tensão entre ele e o Kurt, e quando o Kurt não ficava empolgado com algo… A dada altura a situação atingiu uma dimensão explosiva.» Vig sustenta esta avaliação, ao recordar que «foram várias as vezes em que o Kurt sentou-se na bateria e tentou explicar ao Chad o que fazer. Havia definitivamente tensão.» Numa entrevista filmada apenas algumas semanas depois, onde discute-se a saída de Jason Everman da formação dos Nirvana, um Kurt Cobain tranquilo sorri para a câmara após uma intervenção de Chad Channing, abanando a cabeça e dizendo-lhe num tom cómico, “You’re the next to go” [És o próximo a ir embora], ao que Channing responde em concordância: «Sim, sou o próximo da lista.»


As gravações seguiam o seu curso com uma abordagem directa, com muito pouco realizado no campo dos overdubs. «Consegui com que o Kurt gravasse parte das guitarras em duplicado, ainda que ele não estivesse de acordo. Cantava de forma tão intensa que era uma sorte conseguir com que gravasse um novo take. Esteve rouco durante todo o tempo em que esteve em estúdio», recorda Vig. «O Krist e o Chad fizeram alguns overdubs mas a banda foi praticamente captada ao vivo.»

Segundo Novoselic, “In Bloom” tinha originalmente uma ponte adicional. «Quando estávamos a ouvir a música já depois de a ter gravado, dissemos ‘Ah, esta ponte não é tão boa assim’. Então o Butch cortou-a directamente da fita com uma lâmina e deitou-a ao lixo.»

A gravação de “Lithium” é recordada por Olsen como um dia muito negativo para Cobain. «O Kurt estava desanimado e fez com que todos nos sentíssemos miseráveis.» Channing comenta que “Here She Comes Now” foi um dos únicos takes que correu bem nas sessões dos Smart Studios. «Fiquei chocado por termos conseguido gravar essa faixa», admite. «Foi uma música divertida.»

A razão que levou a banda a gravar esta música em particular é explicada por Krist Novoselic: «O Gary da Tupelo Records ligou-nos para informar que ia editar um disco de tributo aos Velvet Underground e queria que fizéssemos parte do alinhamento. Nunca a tínhamos tocado e raramente o fizemos depois disso. Limitámo-nos a tocar e ficou pronta em apenas um take.»

Desta primeira sessão com Butch Vig, apenas “Polly” acabaria por ser incluída no alinhamento final de “Nevermind”, com a banda a tomar a decisão de não incluir o nome de Chad Channing nos créditos. O produtor esclareceu que foi o último tema a ser gravado nos Smart Studios, já de madrugada e naquilo que descreve como uma abordagem «muito crua». «”Polly” foi gravada com o Kurt e o Krist a tocar ao vivo», explica. «Depois de as guitarras estarem finalizadas voltámos atrás e fizemos overdub nos vocais, com o Kurt a cantar as harmonias consigo próprio. Os pratos da bateria foram acrescentados pelo Chad posteriormente.»

A maioria das músicas resultantes desta sessão foram regravadas mais tarde nos Sound City Studios, em Los Angeles, para “Nevermind”. Alguns desses temas sofreram também alterações nos títulos, uma vez que aquando da passagem dos Nirvana pelos Smart Studios, “Breed” tinha como título “Imodium” e “Stay Away” apresentava ligeiras diferenças nas letras e era conhecida como “Pay To Play”. Quando questionado sobre a possibilidade de existirem outras faixas ou takes da sessão nos Smart Studios que tenham sobrevivido, Butch Vig apresenta sérias dúvidas: «Se um take não tivesse nada de aproveitável, apagava-se e gravava-se outro diferente», diz.

Através do registo do estúdio, é possível verificar que todas as músicas foram misturadas por Vig entre os dias 11, 12 e 13 de Abril, à excepção de uma: «Por alguma razão só fiz a mistura de “Here She Comes Now” no dia 8 de Junho de 1990», esclarece.

O plano da Sub Pop era editar o material gravado nos Smart Studios em Setembro de 1990 na forma de um EP ou de um longa-duração. Vig esperava que a banda regressasse para gravar temas adicionais de forma a fechar o álbum, contudo, após a saída de Chad Channing, tanto Cobain como Novoselic decidiram não dar seguimento às gravações. Krist Novoselic chegou a admitir mais tarde que sabiam «que a sessão nos Smart Studios não ia ser o nosso próximo disco». Ainda assim, cópias em cassete da sessão conseguiram chegar às mãos de pessoas ligadas à indústria musical, conforme relata Jack Endino, produtor oriundo de Seattle e responsável pela produção de “Bleach”: «Os Nirvana usaram estas gravações para fazer cassetes. Deram-me uma com a palavra NIRVANA lá escrita e uma capa desenhada à mão. Lembro-me que tinha seis ou sete músicas e acrescentaram a “Love Buzz” no final. Descreveram-na como uma demo, o que por outras palavras significa que andavam à procura de uma nova editora. E o Krist disse-me: ‘Não digas à Sub Pop que te dei isto, mas é o que estamos a enviar para tentar conseguir um novo contrato’. Estavam a dar as cassetes a ver se geravam algum interesse.»