Nevermind: Sound City Studios (Parte 4)

Sound City Studios, Van Nuys & Devonshire Studios
2-28 Maio 1991 – Burbank, Califórnia, EUA



«Não quero mais fazer isto.»

(Kurt Cobain)


Nirvana:
Kurt Cobain (voz, guitarra)
Krist Novoselic (baixo, voz)
Dave Grohl (bateria, vozes)
Kirk Canning (violoncelo)

Crew:
Butch Vig (produtor)
Jeff Sheehan (assistente no Sound City)
James Johnson (assistente no Devonshire)

Alinhamento:
[O] Smells Like Teen Spirit [Nevermind, 1991]
[O] In Bloom [Nevermind, 1991]
[N] Come As You Are (com rascunho vocal)
[O] Come As You Are [Nevermind, 1991]
[O] Breed [Nevermind, 1991]
[X] Lithium
[N] Lithium (com rascunho vocal)
[O] Lithium [Nevermind, 1991]
[O] Endless, Nameless [Nevermind, 1991]
[O] Territorial Pissings [Nevermind, 1991]
[O] Drain You [Nevermind, 1991]
[O] Lounge Act (take alternativo)
[O] Lounge Act [Nevermind, 1991]
[O] Stay Away [Nevermind, 1991]
[O] On A Plain [Nevermind, 1991]
[O] Something In The Way (Canning no violoncelo) [Nevermind, 1991]
[O] Get Together (Novoselic no registo a cappella) [Nevermind, 1991]
[N] Sappy *
[O] Old Age (com rascunho vocal) [With the Lights Out, 2004]
[N] Old Age (com rascunho vocal) *
[O] Verse Chorus Verse (com rascunho vocal) [With the Lights Out, 2004]
[N] Verse Chorus Verse (com rascunho vocal) *
[?] Song In D (instrumental)
Legenda: [O] Oficialmente editado / [N] Não oficial / [X] Não editado / [?] Não confirmado
Nota: Devido a um bug, o Spotify nem sempre irá tocar a música correspondente à ligação, direccionando o ouvinte para o álbum onde a faixa está inserida. Para chegar à faixa certa, o link deve ser copiado e colado directamente no campo de pesquisa da aplicação do Spotify.

* No Verão de 2015, estas faixas vieram a público, em conjunto com outras demos ou versões alternativas de temas dos Nirvana. Todos os uploads no Youtube ou Soundcloud foram eliminados, existindo ainda alguns pontos de download na internet.

Na última semana de Abril de 1991, sensivelmente um ano depois da passagem pelos Smart Studios, os Nirvana viajavam até à periferia de Los Angeles para darem início às gravações daquela que seria a sua estreia através de uma editora major, “Nevermind”. Sobre a viagem, Dave Grohl recorda: «Lembro-me de que deveríamos ir gravar em Abril ou em Maio. Foi adiado umas semanas e voltou a ser adiado outra vez. Estávamos desejosos de ir gravar o álbum, mal podíamos esperar. Ensaiámos tanto que provavelmente poderiamos tê-lo gravado ao vivo e teria ficado semelhante ao que se ouve no álbum. Mas estávamos ansiosos, queríamos muito ir gravar. Finalmente, quando marcaram a data, decidimos organizar um concerto para arranjar dinheiro para a gasolina, por isso tocámos num sítio chamado OK Hotel. Pensámos em tocar a nova música, “Smells Like Teen Spirit”, e o público foi ao rubro. Pensei, ‘Que fixe. Uma canção nova, que ninguém conhece, e estão todos aos pulos.’»

«Quando o Kurt e eu fomos para Los Angeles, começámos com o pequeno Datsun B210 dele, um carro que uma velhota deu ao Kurt e que mal trabalhava, e íamos para os ensaios todos os dias naquele carro», continua Grohl. «Estávamos entusiasmados, carregámos o carro e começámos a dirigir-nos para a I5, a caminho de Los Angeles, e ao fim de 20 minutos a temperatura do motor atingiu o máximo. Estava em sobreaquecimento. ‘O que fazemos?’ Encostámos – nenhum de nós percebia de carros – deixámo-lo arrefecer, enchemos o radiador e voltámos para a auto-estrada para andar um pouco mais. Dez minutos mais tarde voltou a sobreaquecer. Acho que fomos até Oregon mas demorámos cinco horas para chegar lá, pois parávamos a intervalos de 20 minutos. [Risos] Regávamos o motor à mangueirada para arrefecê-lo, o que, obviamente, é uma péssima ideia, e dizíamos, ‘Porra! Isto é uma tortura, parece um pesadelo. Parece que corremos e estamos cada vez mais longe.’ Foi horrível, por isso demos meia volta e ligámos ao Krist de uma cabina, e dissemos-lhe: ‘Com este carro, não vamos conseguir.’ E ele disse: ‘Voltem para Tacoma, metam-se na minha carrinha e levem-na.’ Por isso, voltámos para Tacoma, o que levou-nos mais cinco horas pois tínhamos que parar a cada dez minutos, e lembro-me de estarmos tão irritados que parámos numa pedreira e apedrejámos a porra do carro durante meia hora. Partimos os vidros todos e ainda nos faltava meia hora de viagem! [risos] Deixámo-lo à frente da casa do Krist, metemo-nos na carrinha e conduzimos até lá.»

Butch Vig é recrutado uma vez mais para o cargo de produtor, com a banda a ignorar outros possíveis candidatos de renome, como Scott Litt (que ficaria mais tarde ligado a “In Utero”), Don Dixon e David Briggs. «Trabalhar com ele em Madison foi uma grande experiência», recorda Krist Novoselic. «A editora queria que trabalhássemos com outros produtores mas era algo um tanto intimidante e estávamos confortáveis com o Butch.»

Esta seria a primeira vez que Butch Vig abandonava o conforto de Madison e dos seus Smart Studios para trabalhar em Los Angeles. «Nunca lá tinha trabalhado», refere, «mas sabia que era lá que a banda queria gravar o disco e conhecia já a reputação do Sound City. Chegámos a um acordo benéfico para ambas as partes e fomos sem saber o que nos esperava.»

Antes de os Nirvana darem entrada no Sound City, reservaram alguns dias num local de ensaios conhecido como 3rd Encore. Dave Grohl partilha: «Fizemos alguns dias de pré-produção, coisa que eu nunca tinha feito. Tinha gravado discos antes mas sempre em estúdios montados em caves, com gravações feitas à primeira. Nunca tinha feito um álbum a sério, ou pelo menos tão sério como este. Pensava: ‘Ena, estamos a tornar-nos profissionais, vai ser um disco a sério.’ Por isso fizemos alguma pré-produção com o Butch, que já conhecia muitas das músicas mas ainda não tinha ouvido algumas das canções novas. Foi fantástico.» Butch Vig completa: «Fomos para um estúdio de ensaios, no Norte de Hollywood, e a banda instalou-se. O Krist tinha o seu SVT, o Kurt tinha um amplificador MESA e penso que tinha duas colunas, pois queria fazer muito barulho. O Dave montou a bateria e não havia microfones no seu equipamento. Entrei, conheci-os, e pareciam todos muito fixes. Disseram-me, ‘Bem, é melhor tocarmos uma das músicas para ouvires.’ Pegaram nos instrumentos e tocaram “Smells Like Teen Spirit”. Simplesmente explodiu! Lembro-me de me levantar e de começar a andar de um lado para o outro. Nem queria acreditar na intensidade e na energia do som deles. A bateria do Dave não tinha microfone e, mesmo assim, era ensurdecedora. Era um som fabuloso. Lembro-me de ter começado a transpirar e de dizer, ‘Meu Deus, isto é incrível!’ Não sabia bem o que fazer quando eles acabaram, mas fiz uma pausa e disse: ‘Foi muito bom, rapazes. Toquem outra vez.’ Precisava de dar tempo ao meu cérebro para assimilar tudo. Tinham um som tão bom e catártico, e muitas das músicas não precisavam de ser muito trabalhadas. Quando começámos a pré-produção, fizemos algumas alterações, limámos umas arestas aqui e ali, mas eles estavam afinados, tinham ensaiado muito e o Kurt tinha trabalhado as melodias. Mas a primeira vez em que tocaram “Smells Like Teen Spirit” foi incrível.»

A presença de Butch Vig foi uma constante, que logo se deixou impressionar pela energia de Dave Grohl na bateria. «O Kurt ligou-me e disse-me, ‘Tenho o melhor baterista do mundo!’ Pensei cá para mim, ‘Sim, claro. Já ouvi essa.’ Contudo, quando ensaiámos pela primeira vez e começaram a tocar as músicas, era realmente espectacular. O Dave tinha muita energia e groove. Pela forma como o Kurt e o Krist tocavam com ele,  era possível perceber que tinham atingido um novo nível no que à intensidade diz respeito.» Considerando o possível desgaste que os ensaios em demasia poderiam causar nas composições da banda, Butch Vig decidiu não pressioná-los: «Honestamente, não queria que desgastassem as músicas. Só queria ouvir os arranjos e talvez reforçar um ou outro detalhe.»

A banda ficaria hospedada em Los Angeles, como Krist Novoselic explica: «Foi interessante, o sítio onde ficámos. Existem uns apartamentos mobilados que são arrendados ao mês. Então arrendámos um por dois meses à… Era algo tipo Corporate Apartments. Eram utilizados por pessoas do mundo do espectáculo que iam ao Sul da Califórnia para trabalhar num projecto mas não arrendavam uma casa. Ficavam muito em conta. Eram apartamentos genéricos mobilados ao estilo dos anos 80 e claro que o destruímos completamente. Ficou tudo partido. Partimos os quadros, a mesa de apoio, as cadeiras… Quando nos viemos embora estava tudo espatifado. Demos largas à nossa fúria.»

As sessões no Estúdio A do Sound City arrancam oficialmente no dia 2 de Maio, com a duração prevista de um pouco menos de três semanas. A banda aparecia por volta das 13h00 e ficava a trabalhar até à meia-noite, e se as gravações se tornassem num processo stressante e enfadonho, o trio descomprimia ao tocar covers das suas bandas favoritas da década de 1970, como Alice Cooper, Black Sabbath ou Aerosmith, sendo que não se sabe se há ou não existência destas gravações. Terminada a sessão, o trabalho dava lugar à farra na praia de Venice até ao amanhecer. «Eles estavam em Los Angeles, tinham acabado de assinar um contrato com a Geffen, tinham algum dinheiro, e por isso saíam e celebravam», comenta Vig. Apesar de todas estas distracções, a secção rítmica mostrava-se firme e a base musical estaria completa em apenas cinco ou seis dias. «Com o básico decidido, a partir daí foi um processo rápido», refere Vig. «O Dave estava instalado no centro da sala. Posicionámos um túnel de bateria grande em frente ao bombo para que conseguíssemos captar o som à distância e ainda assim isolá-lo da restante sala. O Krist tinha o amplificador do baixo afastado mas podia tocar dentro da sala, com os headphones configurados ao lado da bateria. Os amplificadores do Kurt estavam numa pequena área isolada mas ele encontrava-se igualmente na sala, com um microfone. Começávamos a trabalhar numa música e geralmente o básico era finalizado em dois ou três takes. Se falhasse uma nota ou uma corda, voltávamos atrás e remendávamos na hora.»

No que diz respeito ao equipamento, Novoselic estava em menor número, apenas com dois baixos Gibson Ripper e um amplificador SVT 400T. Já Kurt Cobain fazia-se acompanhar de um pequeno arsenal de guitarras: uma Fender Mustang Lake Placid Blue Competition de 1969, uma Fender Jaguar Sunburst com pickups DiMarzio de 1965, uma guitarra acústica Stella, um par de Fender Stratocasters novas e uma Mosrite Gospel, que foi a escolha de eleição de Cobain para o registo da maior parte das músicas. «Alugámos também um amplificador Fender Bassman, um Vox AC3O e cabeças e amplificadores da Marshall», completa Vig. Dave Grohl apresentou-se com a sua Tama Granstar, com tarolas e pratos alugados à Drum Doctors. Uma peça fulcral do equipamento alugado pela banda era uma tarola conhecida como “The Terminator” (O Exterminador). «É algo que se destaca quando ouves o disco», observa Ross Garfield da Drum Doctors. «É um protótipo de uma tarola em latão da Tama. É muito pesada», explica. «Cinco vezes mais pesada do que qualquer outra tarola que eu tenha visto.» Aparentemente, Grohl usava tanta força na bateria que tinham que mudar as peles a cada duas músicas.

Com a base das músicas agora completa, a banda, juntamente com o produtor Butch Vig, migrava para o Estúdio B do Sound City para gravar os overdubs. «Começámos por acrescentar uma segunda guitarra ritmo», relata Vig, «e o Kurt começou a trabalhar um pouco mais nas vozes. O Dave gravou também algumas harmonias.»

De forma a preservar a sua voz nas sessões de “Nevermind” (e talvez para obter algum estímulo), Kurt Cobain servia-se de uma garrafa de Hycomine, um xarope para a tosse. O vocalista mostrava-se relutante em repetir takes, o que levou Butch Vig a iniciar as gravações logo que Kurt iniciava o aquecimento para que assim pudesse maximizar a quantidade de material. Relembramos que Vig reunia já alguma experiência de trabalho com os Nirvana e as sessões nos Smart Studios acabaram por prepará-lo, de certa forma, para o que aí vinha. «Aprendi nas sessões dos Smart Studios que o Kurt era um tipo difícil de entender, pois tanto estava eufórico e pronto para tocar, como meia hora depois sentava-se num canto e não falava com ninguém», relembra o produtor. «Por vezes a sessão tinha que ser interrompida. Ficava completamente taciturno… Percebi rapidamente que o Kurt não gostava de cantar durante muito tempo.» Vig acrescenta ainda que Kurt Cobain queria gravar tudo ao primeiro ou segundo take: «Gravava um par de takes e dizia ‘É isto. Não vou gravar mais.’ Foi desafiante encontrar uma forma de o motivar para que tivesse uma performance muito boa. Por vezes os seus primeiros takes eram brilhantes mas às vezes também precisavam de ser trabalhados e de mais foco. O que acabei por fazer foi gravar tudo aquilo que ele cantava, até mesmo os ensaios. Muitas das vezes, ia dar início à gravação do primeiro take mas fazia-o pensar que era só um ensaio. Então pedia ao engenheiro de som que gravasse uma nova pista e dizia ao Kurt ‘Ok, estás pronto para o teu primeiro take.’ Com um pouco de sorte, conseguia arrancar até quatro registos dele. Depois disso seleccionava as melhores partes de cada um e criava uma master a partir disso.»

Tais artimanhas viriam a causar alguns desentendimentos entre Cobain e Vig, com o guitarrista a preferir manter as coisas simples e o produtor a insistir na criação de layers com diferentes sons, como este último recorda. «Queria que ele duplicasse as guitarras em alguns dos temas, especialmente nos refrãos, e o Kurt não queria mesmo fazê-lo. A minha lógica era, ‘Quando vocês tocam ao vivo, fazem-no de uma forma incrivelmente barulhenta e intensa. É algo realmente grandioso e estou a tentar usar alguns dos meus conhecimentos em estúdio para fazer com que vocês consigam esse mesmo resultado num disco.’ O Kurt dizia com frequência ‘Não quero fazer isso agora’, mas na maior das vezes, quando lhe pedia para fazer algo, ele acabava por fazê-lo. Não tivemos grandes discussões nem nada que se pareça, mas conseguia entender quando estava a exigir demasiado e ele não queria fazer algo. Em algumas ocasiões, o Kurt chegou a pousar a guitarra e a afastar-se do microfone dizendo ‘Não quero mais fazer isto.’ Aí eu sabia que não ia conseguir tirar mais nada dele.»

Seguindo para o registo da voz, as sessões eram um pouco mais privadas, apenas com Butch Vig e Kurt Cobain presentes. O microfone era instalado na área principal do estúdio que, como Vig conta, «era uma espécie de lounge». «Tínhamos velas e uma carpete grande no chão. Havia uma boa energia. O Dave e o Krist andavam por lá mas saíam para jogar bilhar ou ver televisão. Apareciam de vez em quando para ouvir o que estava a ser gravado mas o Kurt queria ficar sozinho para gravar a voz. Também não gostava de usar headphones, pelo que elaborámos um sistema em que lhe era possível substituir os headphones por colunas.» Para a maior parte das vozes gravadas por Cobain, foi utilizado um microfone Neumann U67 e um compressor LA2A. «Em estúdio, apliquei uma quantidade razoável de compressão na voz para que pudesse controlar as dinâmicas do Kurt, sendo que convenci-o também a fazer double-tracking. Sou um grande fã de vocais duplicados, particularmente nos refrãos, e isso foi algo que ele fez algumas vezes e que fez do som do disco aquilo que é. O Andy Wallace, que trabalhou a mistura, ajustou uma espécie de eco duplo captado em algumas músicas com um pouco de reverb mas na sua maioria os vocais foram deixados como estavam. Foi esta a abordagem escolhida tanto por mim como pela banda, e foi igual com as guitarras e a bateria, em que procurámos um som algo seco e directo.»