Smells Like Teen Spirit: A gravação do vídeo

Após o lançamento de “Nevermind” a 24 de Setembro de 1991, os Nirvana enfrentavam alguma resistência por parte das rádios, falhando em obter a exposição desejável. O público faria a sua parte ao inundar as estações de rádio com pedidos para que passassem “Smells Like Teen Spirit” e o vídeo chegava à MTV onde causaria sensação entre os programadores do canal televisivo, mas antes de tudo isso acontecer os Nirvana eram ainda um nome obscuro, assim como Samuel Bayer, o realizador.

«Não conhecia os Nirvana nem nunca tinha ouvido falar deles», admite Bayer. «Tinha ido para Los Angeles para realizar vídeos e disse à editora: ‘Estou faminto e preciso de trabalho.’ Eles disseram-me: ‘Temos uma banda, os Nirvana, que poderá vir a vender umas centenas de milhares de discos. Vamos dar-te algum dinheiro para fazeres o vídeo.’ Soube que estava a participar em algo especial porque vi um concerto deles no Roxy um pouco antes da gravação do vídeo, e eles tinham sido incríveis, pelo que fiquei com a ideia de que aquilo iria ser importante.»

O concerto no Roxy Theatre, em Hollywood, acontecia no dia 15 de Agosto de 1991 e não era mais do que um showcase para representantes da indústria musical. O desempenho da banda não só impressionaria os executivos da Geffen como seria considerado o melhor concerto dos Nirvana, com a revista Kerrang! a atribuir-lhe a primeira posição numa lista onde apontavam os 100 melhores concertos de sempre. Depois de tocarem “Smells Like Teen Spirit”, Krist Novoselic informou o público de que iriam gravar um vídeo nesse fim-de-semana e flyers informativos foram distribuídos.

O conceito para o vídeo foi criado por Kurt Cobain, que definiu as bases e descreveu cada detalhe ao realizador, incluindo a ideia de usar líderes de claque com o símbolo da anarquia. «A ideia deles era fazer algo muito punk e usar um filme chamado ‘Over The Edge’ como referência», explica Sam Bayer. «É um filme de culto obscuro com o Matt Dillon sobre uns miúdos que se revoltam nos anos 70 e destroem um liceu. Queriam também usar como referência ‘Rock’n’Roll High School’ dos Ramones, pelo que peguei em excertos do que eles falavam e gostei da ideia de tudo se passar no ginásio de uma escola.»

Contudo, Kurt não parecia entusiasmado com a ideia de trabalhar com um realizador, uma vez que queria ser ele próprio a dirigir o vídeo. Trocaram-se berros e Bayer usou a ira de Kurt Cobain a seu favor: «Basicamente, ninguém queria estar lá mais do que meia-hora e eu precisei deles durante 12 horas. Ao fim de 11 horas, quando a banda já estava farta e os miúdos estavam tão furiosos que só queriam ir-se embora, eles perguntaram-me: ‘Ouve, podemos destruir o cenário?’ Eu estava exausto e respondi ‘Tudo bem, destruam o cenário, quero lá saber!’ Os miúdos desceram das bancadas e é tudo real. Nos últimos 30 segundos do vídeo, os miúdos destroem mesmo o cenário. Eu tinha um rolo de película na câmara, olhei pela objectiva e pensei: ‘É isto!’ Fez-se luz. ‘É incrível!’ Filmei tudo e tornou-se a parte final do vídeo. Aqueles miúdos não eram figurantes contratados, e a destruição e o motim no fim do vídeo são reais.» O realizador acrescenta: «Houve uma altura, durante o vídeo, em que o Kurt já tinha cantado três ou quatro vezes e não queria fazê-lo mais, e eu tive que dizer à editora, ‘Ele tem de cantar mais duas vezes senão não tenho vídeo.’ E o que recordo, e que torna o vídeo bastante forte, ou pelo menos é nisso que quero acreditar, é que o Kurt estava tão furioso por estar ali que foram as imagens que o obrigámos a gravar que se tornaram finais.»

Kurt acrescentaria também um plano que mostrava o seu rosto quase premido contra a câmara: «Quando ele aproxima a cara da câmara ao ponto de ficar desfocada e grita para a objectiva, ele estava mesmo irritado por estar ali, e uma parte de mim lamenta por ter sido obrigado a fazer-lhe aquilo mas foi uma actuação fabulosa», descreve Bayer. «Eu tinha uma versão do vídeo que continha outras imagens mas não era tão boa. Havia outras personagens no ginásio do liceu, como o reitor e outros chavões dos vídeos musicais que tinham sido incluídos. O Kurt estava muito insatisfeito com isso e então veio de Seattle. Foi a última vez que o vi. Sentou-se comigo na sala de montagem e tomou algumas decisões brilhantes. Durante o solo de guitarra, disse: ‘Quero ver as minhas mãos na posição errada da guitarra.’ Era um tipo inteligente, sabem? Era muito inteligente. Desde então, sempre que lidei com artistas, era sempre uma questão de vaidade, onde a preocupação era ‘Que tal estou?’ Ele não queria saber disso. Só lhe interessava que o vídeo tivesse algo que reflectisse o que eles eram. Tirou-me literalmente da obscuridade e lançou a minha carreira, e nunca teria acontecido isso com outra banda nem com outro vídeo. Para mim, foi tudo.»

Actualmente, o vídeo “Smells Like Teen Spirit” ultrapassou os mil milhões de visualizações no YouTube e está perto de alcançar esse número em audições no Spotify.